quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Mãe sofre!

Aí, num destes domingos da vida, eu, que dormira na casa da minha irmã, acordo com as vozes, risadas e gritos dela e do meu sobrinho, resultantes das brincadeiras e conversas as quais já se tornaram um ritual sempre que a mamãe coruja, e profissional atarefadíssima, tem a oportunidade de ficar em casa e curtir seu "bebê", que conta agora com 7 anos completos.
Já desperta, mas ainda tomada pela preguiça de me levantar e ir ao encontro deles, fico quieta, me esforçando para matar a curiosidade de saber qual é o tema do empolgado diálogo:
- Mas meu filho, você e os meninos (dois coleguinhas da escola) não percebem que aquela guriazinha fica se jogando para os três?
- Ah mãe, a gente sabe, mas você não sabe o que aconteceu sexta, foi muito legal!
- Então me conte!
- A "Fulana" me pediu que eu pegasse para ela a régua que estava no armário. Eu corri e fiz o que ela pediu, bem depressa! Daí, mãe, ela olhou, sorriu pra mim e beijou meu rosto dizendo "Você merece um beijinho!"
- Olha!!! Tá vendo, filho?! Ela está usando você!
- Aaaaa, mãe, então eu GOSTO de ser usado!!!!!!!
Sem alternativas ou argumentos, explodimos as duas - ela de lá, eu de cá, em sonoras gargalhadas, às quais ele, sem se fazer de rogado, acompanhou.
Porém... lá do meu quarto, para além do som das risadas, eu conseguia ouvir o coração da minha irmã... num ligeiro descompasso de quem teme o futuro.








                             (Qualquer semelhança com fatos reais, não é mera coincidência!)

Amigos sim, perfeitos não.

Amizade... Diz-se por aí que amigo é aquele no qual se pode confiar, porque se a amizade é verdadeira, ele nunca vai te trair e sempre vai estar lá para você. E se isto não acontecer, inevitavelmente, virá a decepção e com ela a quebra de confiança. Assim acontecendo, nada será como antes, pois, uma vez quebrada, a frágil confiança não poderá consertada a contento.
No entanto, como pode algo tão importante, tão fundamental para qualquer tipo de relacionamento, ser tão delicado? Ouso dizer que não é.
A confiança pode ser arranhada, machucada e, obviamente, isto dói. O quanto durará esta dor e o tamanho dela, varia de acordo com as expectativas de cada um. Também varia de pessoa para pessoa, e em função dos cuidados recebidos, a cicatriz que desta ferida resultará.
Metáforas à parte, a verdade é que somos todos humanos e estamos sujeitos a erros. Sendo os nossos amigos muito próximos de nós, qualquer das partes pode ser vítima deste fato. No dia-a-dia, estamos sob a influência do ciúme, do cansaço, da carência, dos problemas familiares, dos problemas do coração e dos nossos defeitos, é claro. Tudo isso, não raro, nos ofusca os sentidos e acaba levando a situações que suscitam mágoa e ressentimento naqueles que estão ao nosso lado, mesmo quando os amamos, ou até em razão deste amor.
Quando isto se dá, alguns elementos determinam se era, ou não, amizade o sentimento que existia antes que se desse o problema. Porque, se for, embora ciente da culpa, quem errou vai pedir e insistir no perdão, não vai desistir nunca de você. E quem foi ofendido, depois de ter tido o devido tempo – horas, dias, meses, ou até anos - para digerir os acontecimentos, acabará perdoando. Em tempo, por mais que se sinta desiludido, o coração de quem se ofendeu será acalentado, ainda que secretamente, por esta insistência no perdão, pois se sentir importante, ter a certeza da relevância que se tem na vida o outro, faz toda diferença.
Outro fator que merece destaque é ter a oportunidade de vivenciar o outro lado, é também necessitar do perdão de alguém, é ver em nós mesmos, a possibilidade de errar e, mesmo sem uma justificativa razoável, querer ser absolvido. É sentir na própria pele, que se pode magoar o outro, sem ter deixado de amá-lo e de se importar com ele.



Por fim, mas não menos importante, é ter a capacidade de aceitar o outro como ele é, é ser capaz de lidar, suportar e contornar o que não nos agrada, por achar que o que existe de positivo na relação com ele, supera e compensa alguns sacrifícios.
Contudo, se, a princípio, contesto quanto à fragilidade da natureza da confiança, admito ser ela o ponto nevrálgico das relações humanas, e, por conseguinte, da amizade. Não é nada fácil superar abalos de confiança, e é sempre um processo doloroso. Mas, quando isto se dá, o resultado será uma reconfortante surpresa: o sentimento que te une ao outro é ainda mais forte que um laço – o qual pode se desfazer a qualquer momento -, pois se assemelha aos vigorosos elos de uma corrente, sendo capaz de resistir muito melhor às intempéries da vida. E esta certeza, conseguida à duras penas, acalenta a alma.
Perante estes motivos, prefiro a definição a qual afirma que um amigo pode até te sacanear, enganar, te fazer sofrer, chorar, te decepcionar... Mas jamais admitirá que outra pessoa faça quaisquer destas coisas contigo. E que se num momento de necessidade, ele tiver faltado, independente do motivo, assim que se der conta, ter perdido a chance de te ajudar, doerá nele tanto quanto esta ausência doeu em você.
Então, deixo aqui o meu recado: todos que se sentiram culpados por serem traídos, sacaneados e em função disto odiaram, xingaram, gritaram, mas  mesmo assim conseguiram superar e voltaram, ainda que contra seus próprios princípios, a sentir saudade, vontade de conversar, de rir, de compartilhar com quem o coração insiste em chamar de amigo, perdoe-se. Você não é louco, nem é fraco, muito pelo contrário. Sabe-se que perdoar é para os fortes de espírito. E para os que quando amam estão convictos da reciprocidade deste amor – que aqui também pode ser chamado de amizade -, apesar dos pesares.

(Texto dedicado a Vanessa, com quem muito aprendi e ainda aprendo sobre amizade.)

A libélula



Em um pequeno lago, na água enlameada sob os lírios, vivia um besouro em uma comunidade de besouros água. Eles viviam uma vida simples e confortável no lago, com poucos distúrbios e interrupções.
De vez em quando, a tristeza surgia para a comunidade, quando um de seus companheiros besouros resolvia escalar o tronco de uma almofada de lírio, para não mais ser visto. Eles sabiam que quando isso acontecia, seu amigo estava morto, tinha ido para sempre.
Certo dia, um destes besouros d'agua sentiu um impulso irresistível de subir a haste. Entretanto, foi determinado que ele não ia embora para sempre. Ele iria voltar e dizer a seus amigos o que tinha encontrado no topo.
Quando ele chegou ao topo e subiu para fora da água, para a superfície da almofada de lírio, ele estava tão cansado, e sentiu o sol tão quente, que ele decidiu que deveria tirar uma soneca. Enquanto ele dormia, seu corpo mudou e, quando acordou, ele tinha se transformado em uma bela e azulada libélula com asas largas e um corpo esguio projetado para voar. Então, ele voou! E, como ele subiu, viu a beleza de um novo mundo e uma forma de vida muito superior ao que ele nunca tinha conhecido ou soubesse existir.
Em seguida, lembrou-se de seus amigos besouros e como eles estavam pensando, agora ele estava morto. Ele queria voltar para dizer-lhes, e explicar-lhes que agora estava mais vivo do que jamais houvera estado antes. Sua vida tinha sido cumprida e não terminara. Mas, o novo corpo não iria cair na água. Ele não podia voltar para dizer a seus amigos a boa notícia. Foi quando ele compreendeu: seu tempo viria, e aí eles também saberiam o que agora ele já sabia.

(autor desconhecido)